terça-feira, junho 17, 2014

Inacreditável.

" O melhor modo de despistar é dizer a verdade."
  C. Lispector.

  Procurei pensar em montanhas altas, de onde seria possível observar toda a obra divina e me assegurar de que estava certa no que cria. Mas pensei no raso, em covas recém abertas para sepultar outros sonhos de outros crentes. Logo pensei no meu avô Bastião, fortaleza inexpugnável, mais conhecido como Bastião Sardote, uma corruptela de Sebastião Sacerdote, sobrenome que nem era de batismo, nem de pai ou de mãe. Lembrei dele com pesar por que me era muito querido, mesmo com aquela presença sempre austera, sua intolerância com nossos pecados infantis e sua desconfiança de que eu não era pessoa sincera. Por mais que eu lhe dissesse mil vezes que o adorava não me acreditava e esperava de mim a atitude falsa que comprovaria a suspeita que tinha. Ele morreu sem que a minha pessoa lhe fosse decifrada, sem a confirmação de sua crença. Outros também esperaram o pior de mim, e com um olhar ali e uma palavra lá concluíram que estavam certos. Talvez por culpa dos meus olhos que são grandes e caídos, desajeitados. ou, quem sabe, o meu falar irreverente desenfreado por onde são revelados os segredos que pensavam emparedados. Não sei, das duas uma, ou outras que se quer me ocorrem. Disseram-me criatura falsa algumas vezes e eu sempre me acanhei sem saber me defender, sem saber dizer que sim, nem que não,  por que nem sabia como me tinha escapado a sinceridade. Na incerteza, peço desculpas, sempre. De minha parte fica assim; se e que me acreditam, nunca achei um único indivíduo que eu pudesse dizer falso, todos sempre me pareceram de verdade.

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