sexta-feira, setembro 25, 2009

O primeiro desdobramento.

Por Paulo Brabo.

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O primeiro desdobramento da transgressão divina – o primeiro de tantíssimos, talvez infinitos desdobramentos – é a transgressão humana, e ao final deste brevíssimo primeiro ato Deus já está em maus lençóis.



O problema da contribuição humana não reside na transgressão em si, ela mesmo embutida na narrativa e portanto esperada; desde o princípio o que estava em jogo não era se, mas com qual peso de graça o homem pisaria o terreno sagrado da transgressão. E, para embaraço de sua herança, o homem transgredira sem delicadeza, sem cavalheirismo, pela intermediação da serpente, que urdira com a má caneta da acusação a lei do pecado.



Deus transgredira sem pecar; porém o homem, a fim de transgredir, vestira a máscara da acusação e conhecera nessa transação o pecado. Nessa manobra toda Deus saíra ileso, mas no rigor da sua integridade está embutido seu novo problema.



Até aqui o pecado não tem reflexo em Deus porque Deus não acusa, mas nessa vantagem estratégica reside seu calcanhar de Aquiles e a semente de um conflito inteiramente novo. Ao rebaixar-se à acusação o homem abrira mão da singularidade divina, mas sua imprundência (como em todas as histórias) não atingira apenas sua própria esfera. Sua autonomia lançara estilhaços profundos sobre a pele incólume de Deus.



O novo dilema está em que, diante do pecado e do fato de que o homem se tornara claramente digno de reprovação, como Deus pode manter-se livre, ele mesmo, de acusar o homem? Como deixar de empunhar a máscara da acusação, que Adão deixara cair tão convenientemente aos seus pés? Se não, como empunhá-la sem conceder à acusação e ao pecado o poder de destruir todas as relações futuras entre seres autônomos, para sempre?



Ao final deste primeiro ato resta ao protagonista este formidável impasse. Ao manter-se íntegro Deus tornara-se superior e criara – mesmo que inadvertidamente e pela via torta e formidável da liberdade de outro – a injustiça e seu abismo. Seu monólogo interior diante das árvores gêmeas encontra eco no ventre das eras que estão para nascer. Será possível manter-se superior sem esmagar o inferior? Será possível restaurar sem acusar? Pela via da transgressão o homem se tornara “como um de nós”, conhecendo as complicações e ambivalências da autonomia. Seria possível reparar-lhe a honra? Seria possível restaurar a honra divina? Seria possível restaurar uma sem a outra? Se Deus encontrara ele mesmo problemas para gerenciar a sua abundância, com que recurso se poderia ensinar o homem a calibrar a sua?



Para alguém que fundara o universo e moldara o homem a fim de demonstrar que tipo de pessoa era, neste momento Deus parece sozinho e muito longe de poder alcançar a individuação.

3 comentários:

Lou Mello disse...

Não consigo abandonar essa sensação de que Deus deve ter mesmo se arrependido, de alguma forma, em ter nos criado, e eu não contribuí muito para Ele se sentir melhor.

Lux Luxo disse...

Eu ando tão " incrédula". Estou achando que Deus, o Papai Noel e o coelhinho da páscoa são a mesma pessoa.
Quero dizer; é melhor que Deus não exista, se não vou ter de acreditar que ele é um perverso.

非凡 disse...

I'm appreciate your writing skill.Please keep on working hard.^^