quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Eu calabouço.

Lidía, ignoramos.
Somos estrangeiros
Onde quer que estejamos.
Lídia, ignoramos.
Somos estrangeiros
Onde quer que moremos.
Tudo é alheio
Nem fala língua nossa.
Façamos de nós mesmos o retiro
Onde esconder-nos, tímidos do insulto
De tumulto do mundo.
Que quer o amor mais que não ser de outros?
Como um segredo dito nos mistérios,
Seja sacro por nosso.

F. Pessoa.

Eu Calabouço.

Dasdores sacou um sorriso e atirou um beijo na direção que ficou vazia. Na verdade ela não era nada na porta do cinema e talvez por isso o ônibus tenha ido, não pode ver, quem o conduzia, o braço de moça estendido. Por certo distraíram-se com o show pirotécnico da cidade grande e com as pernas que acompanhavam as mini-saias cada vez mais minis. E por Dasdores também passou lotada a felicidade e na frente da tv estacionaram pensando que ninguém assistia. Ficou com medo de chorar, de que alguém imaginasse que ela chorava por uma coisa a toa; alguém morto, ou um desgraçado namorado. Chorou mesmo assim, por dentro, e achou que o cigarro era uma coisa boa. Alguém disse: - Eu quero morrer! – Dasdores pensou que sua alma estava em outra pessoa. Viu seu coração rolar ladeira a baixo e pensou que ainda que dor é vida, é vida falar sozinha. Teve outro medo, medo de que atropelassem sua magreza a passear pelas ruas, medo de que jamais a vissem e lentamente levou as mãos ao rosto tentando encobrir o terror. Mas não era nada na porta do cinema, não era nem poesia. Trancou desespero e ódio no único calabouço que conhecia e seu estômago, cansado de vazio, pedia: - Deus, habita-me !

3 comentários:

b. disse...

isso é tão bunito.

eu ia dizendo que isso é tão bonito, ei. o Belo te habita.

Lou Mello disse...

olá Dasdores, tudo bem? Vê se você se alimenta e não esqueça de levar agasalho quando sair. Vá com Deus!

Luciano Indignado disse...

passando pra dizer que sinto saudades....

beijos