segunda-feira, julho 17, 2006

I

“E não passará desapercebido aquele que em nome da honra cometer desatinos.” Provérbio da confraria de Dolores de Jesus. Nasce em 1758, na Bahia, Dolores de Jesus. Filha de católicos, desde infanta acompanha as missas e novenas em Salvador. Seus pais, como católicos fervorosos, a iniciam em beatísses, almejando para a filha uma carreira santificada. Seria freira, vigária e quem sabe chegasse a abadessa, se seguisse a risca os preceitos cristãos. Acontece que Dolores tinha outros planos, menos ambiciosos e mais mundanos, mas isto ela não confessaria nem para o padre da família. A moça havia notado em seu íntimo que, para a época, seus desejos eram de um caráter que beirava a promiscuidade. Já na adolescência se apanha as voltas com pré-ocupações vaidosas e referentes a própria vaidade, a pobre percebera que não havia sido contemplada com formosura que valesse para contrair matrimônio, achava-se feia em demasia. Mais convicta de que era desprovida de beleza ficou quando em passeios pela Lapa era achincalhada pelos mancebos fidalgos que parasitavam a cidade. Quando começava a atingir a fase adulta entregava o pouco encanto que tinha aos negros de seu pai, que a teriam processado se tivessem a mão os recursos atuais. E assim Dolores, nossa heroína injustiçada, por falta de dotes naturais não casou mas também não passou de beata renomada em Salvador. Jamais conseguiu ingressar no convento da Lapa por conta dos boatos maledicentes que corriam as escadarias das igrejas da pessoa que era Dolores, mas ia à Igreja todo santo dia e os não santos também. Em 1822, durante os primeiros movimentos revolucionários pela independência do Brasil, Dolores se enclausurou no mosteiro com outras freiras para fugir dos violentos combates entre tropas portuguesas e brasileiras. As noviças e freiras, abadessas e quem mais fosse e lá estivesse, temiam que vossas honras fossem devassadas, pois, a notícia era de que a cidade estava entregue à sanha da soldadesca dominadora. Com tudo isso é de se admirar que nenhuma das noivas bahianas de Jesus, nem mesmo a brava Joana Angélica, Já prelada, a cabo de defender suas honras,tenham tido tanta, ou perto disto, determinação quanto teve Dolores de Jesus. Há dias em clausto, em jejum, preocupada como as outras, para não se ver desonrada pelos saqueadores, costurou a própria genitália. Joana Angélica não resistiu ao poderio dos bárbaros, morreu, embora tenha lutado bravamente. Dolores saiu “ ilesa” das garras dos malfeitores, mas faleceu por falta de assepsia.

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