segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Das besteiras...

Investiguem se não é também para vocês um tanto mais assustador ter um bebê em sua casa que um cadáver, estando onde estiver. Quando infanta brincava no cemitério perto de casa por conta da ausência de automotores, que muito afligiam as almas viventes de pais de filhos ocupados com suas obrigações infantis. Se não fosse pelo coveiro, ninguém mais reclamava nossos pinotes em cima de catacumbas. Também nos diziam para ter cuidados com os viventes que davam outra finalidade aos cemitérios que não a de enterrar defunto. Isso não nos incomodava muito, na verdade, em nada, cada um que encontrasse no cemitério a diversão que lhes cabia. E desde estas memórias que não tenho problema em ter com gente morta, posto que sempre me parecera bastante indiferente com a gente viva, mesmo quando aos prantos reclamavam atitudes deles nem era com eles a dor dos egoístas. Nem sempre foi assim, mas hoje encontro na morte um significado outro que não o de cessação da vida e sim o de conclusão, a última fase ou parte de algo que é a vida. Gosto muito da analogia que faz doc francis entre livros e pessoas, pois, eu bem que me agradava com a idéia de ao invés de cemitérios, extensas bibliotecas. Com os bebês sempre tive certos receios. Quando não me incomodavam com sua fragilidade, me angustiavam suas atitudes de alheios às expectativas investidas à eles. Não estou me esquecendo de nada, ser bebê, eu sei, é a primeira fase a ser vencida para então se ter um alguém no mundo, é a iniciação da criatura pensante no mundo. Mas por não conhecer ninguém que tenha lembrança deste estado é que suponho que ser bebê é o mesmo que ser um legume carente de existir e por isso gritam por combustível. Tem em mente qualquer coisa que seja, a criaturinha? Os defensores do aborto afirmam que o feto é coisa nenhuma, mas só se tem um indivíduo a partir daí. Então não entendo bem quando é que para eles é importante a preservação da vida, por que assim, a qualquer tempo, ela poderia ser abortada. Não nego que é preciso zelo para com os bebês, eu mesma seria capaz de cuidar de um com muito esmero, em especial se esse fosse extraído de minhas entranhas, porém, nunca, eu acho, deixaria de me assombrar com a coisinha ali, sob minha proteção, no aguardo de algum futuro desconhecido, como todos são, no caso de existir, claro. E também é, para a mãe, obscuro os caminhos que a coisinha vai se valer, e a afeição que agente vai adquirindo pelo projeto de pessoa, e os medos que eles vão causar na gente. Tenho pra mim que todas as mães são loucas e não por menos . Talvez por isso sejam mães apenas as mulheres, por causa de sua imensa capacidade de amar e se doar para qualquer coisas. Já o defunto, coitado, a não ser pelo fedor, em nada me incomodaria.

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