terça-feira, maio 31, 2005

Querido senhor radialista, toque aquela.

Domingo. O despertador histérico me faz levantar às 9:00. Ótimo, meu plano estava dando certo. Eu tinha tramado um espairecer fulgurante. Ao invés deste, isto: Me encaminhei ao pier do Leblon. Pensei que depois podesse ir ao Sheraton espiar os nerds, sei lá p’ra quê. Muito bem, fiz ir comigo a coisinha a fim de guardar parado um mundo de água. Tirei duas míseras fotos, apenas. Sonolenta e com enjôo, apoiei o rosto nas mãos e os cotovelos na mureta e, plac! Minha coisa foi-se. Eu tinha investido setenta e seis dinheiros brasileiros nela, uma pechincha. Outras pessoas, menos estouvadas que eu, vendo aquilo: - Oh, pobre! De certo pensaram que era tudo de propósito, um funeral para a coisa. Afinal, estamos na era digital. Não, fora um acidente bestial. Respirei, tentei lembrar do Goethe, chorei contido. Rumei pra casa, resmunguei durante todo o trajeto. Aprendi a blasfemar, lembrei do Goethe outra vez, sempre lembro. Já no parque, tive a brilhante idéia de ir à cachoeira, então o dia não estaria de todo perdido. Desisti, reconsiderei e fui. Péssimo estes despachos de macumba, estão em toda parte. Tive de driblá-los até finalmente alcançar o cano que despeja água. Joguei a bolsa num canto e fui me banhar no cano, como se na minha casa não tivesse um desse. Aí, igual a ridícula que sou, comecei a pular embaixo do jato d’água, feito uma minhoca maluca cantarolando uma música de frio e brus de sapo. Não percebi, juro. Se fosse atenta, se tivesse notado aquele moço, logo aquele, teria feito tudo de um jeito macio e sem música de frio acompanhada de um bater de dentes. Teria tentado parecer sexy p’ra não ter de vê-lo gargalhar daquele modo, p’ra ele me amar. A pessoa perguntou que nome eu tinha e logo depois da resposta disse o seu, que bem poderia ser perfeito ou algo assim. Entre risos disse que já tinha me visto em cima do telhado da capela, que mais de uma vez me viu cair pelas escadas e reclamar. Notou que em nenhuma das vezes eu disse palavrões e riu novamente. Sim, entrou em meu assunto favorito: Eu. Quis saber o quê eu faço. Sempre a mesma resposta; não faço nada. Sem muita vontade de mudar o rumo da prosa, perguntei à ele o quê faz da vida. Ele me contou que é médico. Certa feita, sendo eu uma abestalhada amostrada, em vez de elevar o nível da conversa, soltei este ‘brilhante comentário’: - Ah, igual a Victor Frankenstein? Raios, que intelecto patético!( e é o meu). Pois bem, acho que apenas para ser cavalheiro, pediu-me o telefone, pois, até essas horas nenhuma ligação do mancebo. Obviamente lhe dei a combinação certa. Há problemas nestes sentimentos platônicos, sérios. Há anos que eu o conheço e, ao que parece, ele também me conhece. Sempre imaginei como eu me comportaria no dia em que o encontrasse sózinho. Nem de longe se parecia com esse fiasco. Desde domingo que não me sinto mais normal, ou melhor, não me sinto como antes.

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