quinta-feira, fevereiro 17, 2005

Oração à São Jorge Luis Borges e São Machado de Assis.
Não sei mais escrever, se é que um dia o soube, fato é que, tsc, não sei mais escrever, ou pensar que sei. Fico dedilhando letras perdidas, buscando palavras que tenham algum impacto, frases de efeito, tento ser triste, quem sabe me vem um texto que comova a gente, que impressione o leitor atento, ou um desavisado. Mas nada, nada há que se pareça com leitura aprazível, ou que informe alguma idéia, pois, lástima, também não hão idéias que desabrochem em mim, apenas letargia. O que dizer dessa ‘imprestabilidade’? Nem as palavras de ânimo seguidas de exclamações me valem nesta hora, foram-se com o vento. E queria ainda poder contar com meus famosos enganos, com minhas reclamações intermináveis, com textos tão peculiares a minha pessoa sem instrução, cobertos de hipérboles, hiperbatos e pleonasmo, me satisfaria qualquer coisa como aquelas redações que jamais mereceram mais que um 5, 48, mas que foram escritas com a segurança de quem está crente de seu alto valor literário. A que devo este declínio? me pergunta o leitor impaciente. Devo à constatação de que meu intelecto é paralítico, de que não sou capaz de arranjar as idéias, de que nunca fui, de que tomei posse de assuntos que jamais pertencerão à caveira que um dia serei, de que quando encontrava-me dona da verdade, se tivessem me perguntado, então, qual era a tal verdade, eu certamente teria lhes dito alguma mentira.

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