segunda-feira, outubro 18, 2004

Te explico Bar. Os safaris, como chamo, são os passeios que algumas agências de turismo têm organizado para os estrangeiros que pairam nestas terras. Os passeios levam a gente de fora direto pra dentro das favelas com intuíto de mostrar ao povo de outros mundos como vive a gente favelada. O que me desagrada neste estudo antropológico é o modo como se portam, se vestem, como chegam até a africa carioca. De jipe, com roupas utilitárias, botas de guerra e na estampa camuflada, genuínamente igual aos indivíduos que vemos na discovery Chanel em safaris na Africa ou Austrália, estão preparados para enfrentar animais selvagens. Somos, nós, os favelados, de alguma forma, para eles, como animais selvagens. Eu me sinto num zoológico. É possível que eu já tenha me percebido uma girafa em outras situações, mas esta é bem mais constrangedora, além do quê, tomo ares tão violentos que acabo por perceber o motivo de tanto aparato. *** Sim, fui ver as batucadas de Jorge Benjor. Problema é que saio de lá cantarolando Alcione. Eu não pretendia tal, queria me ver feliz, queria dançar feito eu faço na sala quando não tem ninguém olhando, por isso bebi três latas de cerveja. Adiantou de nada ter me embriagado, só desolação. Achei que o artista era debochado, um tipo drogado, oferecia ombros à platéia tão paciente, tão dedicada que esperou quase três horas por sua aparição indiferente, fazia um favor pra`quela gente. Eu me vi alheia, a música era nova, tudo me era estranho, inclusive os palhaços pendurados num barbante grande de balançar gente pra lá e pra cá. A cueca do anão foi a gota, me entristeci de ver que eu não ria como o resto, nem sombra de diversão, não sei por que, mas a chuva me incomodava. Comi duas pizzas, talvez tentasse suicídio. Somei os pontos negativos com os positivos, dividi-os por cinco e constatei feliz que morrerei com cinquenta e sete anos e alguns meses. Tá bom, né? *** Destartes, caminhei num domingo bonito com um coração repartido. *** Fim de domingo fantástico, vasculhando lembranças da irmã distante, lá em seus oito anos, num sitío paraíbano, estudando num grupo escolar, recebendo o dinheiro do governo, uns R$ 30,00 por mês, enquanto eu gasto isto num passeio chinfrim. Também lembro de outra irmã, imagino como devem ser suas feições, dizem um joelho, com alguns meses de vida, com coisinhas em sua cabecinha e sabemos, ela vai esquecer. Talvez eu não esteja tão feliz com a data de meu vencimento. *** No mais, miragens, meus sonhos são bobíssimos, mas vale a pena tentar ser feliz outras vezes, por segundos, por instantes intercalados. A FLOR E A NÁUSEA Carlos Drummond de Andrade Preso à minha classe e a algumas roupas, Vou de branco pela rua cinzenta. Melancolias, mercadorias espreitam-me. Devo seguir até o enjôo? Posso, sem armas, revoltar-me? Olhos sujos no relógio da torre: Não, o tempo não chegou de completa justiça. O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera. O tempo pobre, o poeta pobre Fundem-se no mesmo impasse. Em vão me tento explicar, os muros são surdos. Sob a pele das palavras há cifras e códigos. O sol consola os doentes e não os renova. As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase. Vomitar esse tédio sobre a cidade. Quarenta anos e nenhum problema resolvido, sequer colocado. Nenhuma carta escrita nem recebida. Todosos homens voltam para casa. Estão menos livres mas levam jornais E sole tram o mundo, sabendo que o perdem. Crimes da terra, como perdoá-los? Tomei parte em muitos, outros escondi. Alguns achei belos, foram publicados. Crimes suaves, que ajudam a viver. Ração diária de erro, distribuída em casa. Os ferozes padeiros do mal. Os ferozes leiteiros do mal. Pôr fogo em tudo, inclusive em mim. Ao menino de 1918 chamavam anarquista. Porém meu ódio é o melhor de mim. Com ele me salvo E dou a poucos uma esperança mínima. Uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rios de aço do tráfego. Uma flor ainda desbotada Ilude a polícia, rompe o asfalto. Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu. Sua cor não se percebe. Suas pétalas não se abrem. Seu nome não está nos livros. É feia. Mas é uma flor. Sento-me no chão da capital do pa=e ds às cinco horas da tarde E lentamente passo a mão nessa forma insegura. Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se. Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico. É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

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