terça-feira, junho 17, 2014

Inacreditável.

" O melhor modo de despistar é dizer a verdade."
  C. Lispector.

  Procurei pensar em montanhas altas, de onde seria possível observar toda a obra divina e me assegurar de que estava certa no que cria. Mas pensei no raso, em covas recém abertas para sepultar outros sonhos de outros crentes. Logo pensei no meu avô Bastião, fortaleza inexpugnável, mais conhecido como Bastião Sardote, uma corruptela de Sebastião Sacerdote, sobrenome que nem era de batismo, nem de pai ou de mãe. Lembrei dele com pesar por que me era muito querido, mesmo com aquela presença sempre austera, sua intolerância com nossos pecados infantis e sua desconfiança de que eu não era pessoa sincera. Por mais que eu lhe dissesse mil vezes que o adorava não me acreditava e esperava de mim a atitude falsa que comprovaria a suspeita que tinha. Ele morreu sem que a minha pessoa lhe fosse decifrada, sem a confirmação de sua crença. Outros também esperaram o pior de mim, e com um olhar ali e uma palavra lá concluíram que estavam certos. Talvez por culpa dos meus olhos que são grandes e caídos, desajeitados. ou, quem sabe, o meu falar irreverente desenfreado por onde são revelados os segredos que pensavam emparedados. Não sei, das duas uma, ou outras que se quer me ocorrem. Disseram-me criatura falsa algumas vezes e eu sempre me acanhei sem saber me defender, sem saber dizer que sim, nem que não,  por que nem sabia como me tinha escapado a sinceridade. Na incerteza, peço desculpas, sempre. De minha parte fica assim; se e que me acreditam, nunca achei um único indivíduo que eu pudesse dizer falso, todos sempre me pareceram de verdade.

quarta-feira, março 03, 2010

sexta-feira, setembro 25, 2009

O primeiro desdobramento.

Por Paulo Brabo.

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O primeiro desdobramento da transgressão divina – o primeiro de tantíssimos, talvez infinitos desdobramentos – é a transgressão humana, e ao final deste brevíssimo primeiro ato Deus já está em maus lençóis.



O problema da contribuição humana não reside na transgressão em si, ela mesmo embutida na narrativa e portanto esperada; desde o princípio o que estava em jogo não era se, mas com qual peso de graça o homem pisaria o terreno sagrado da transgressão. E, para embaraço de sua herança, o homem transgredira sem delicadeza, sem cavalheirismo, pela intermediação da serpente, que urdira com a má caneta da acusação a lei do pecado.



Deus transgredira sem pecar; porém o homem, a fim de transgredir, vestira a máscara da acusação e conhecera nessa transação o pecado. Nessa manobra toda Deus saíra ileso, mas no rigor da sua integridade está embutido seu novo problema.



Até aqui o pecado não tem reflexo em Deus porque Deus não acusa, mas nessa vantagem estratégica reside seu calcanhar de Aquiles e a semente de um conflito inteiramente novo. Ao rebaixar-se à acusação o homem abrira mão da singularidade divina, mas sua imprundência (como em todas as histórias) não atingira apenas sua própria esfera. Sua autonomia lançara estilhaços profundos sobre a pele incólume de Deus.



O novo dilema está em que, diante do pecado e do fato de que o homem se tornara claramente digno de reprovação, como Deus pode manter-se livre, ele mesmo, de acusar o homem? Como deixar de empunhar a máscara da acusação, que Adão deixara cair tão convenientemente aos seus pés? Se não, como empunhá-la sem conceder à acusação e ao pecado o poder de destruir todas as relações futuras entre seres autônomos, para sempre?



Ao final deste primeiro ato resta ao protagonista este formidável impasse. Ao manter-se íntegro Deus tornara-se superior e criara – mesmo que inadvertidamente e pela via torta e formidável da liberdade de outro – a injustiça e seu abismo. Seu monólogo interior diante das árvores gêmeas encontra eco no ventre das eras que estão para nascer. Será possível manter-se superior sem esmagar o inferior? Será possível restaurar sem acusar? Pela via da transgressão o homem se tornara “como um de nós”, conhecendo as complicações e ambivalências da autonomia. Seria possível reparar-lhe a honra? Seria possível restaurar a honra divina? Seria possível restaurar uma sem a outra? Se Deus encontrara ele mesmo problemas para gerenciar a sua abundância, com que recurso se poderia ensinar o homem a calibrar a sua?



Para alguém que fundara o universo e moldara o homem a fim de demonstrar que tipo de pessoa era, neste momento Deus parece sozinho e muito longe de poder alcançar a individuação.

domingo, setembro 13, 2009

Lei é lei.

Portanto e por tudo, fumo em casa, nas ruas ( quando não estiverem me olhando) e numa tabacaria, quando encontrá-la com mais de 80 % de seus rendimentos sendo exclusivamente provenientes da venda de tabaco. Acho a lei arbitrária, acho que interfere no direito de liberdade do indivíduo que decidiu fumar, conjeturo muitas coisas, mas lei é lei, cabe a mim obedecer.

sexta-feira, junho 05, 2009

Viradão carioca.

A vida aqui no Rio de Janeiro é um amor. Não tem saúde, não tem segurança, mas tem pão e circo, uau!!

segunda-feira, dezembro 15, 2008

“ Se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão.”

Zé Catimba ( originais do samba)

Mas estes aí do corpo legislativo deste país, de tão cínicos, são capazes de assobiar e fingir que não é nem com eles. E fazem. É entre esta categoria de gente que se descobre os tais cuja conduta e por cujas palavras tenho a menor consideração. ( Abro este para esclarecer que tal é o sei lá o quê que sinto a ponto de me agradar mais a companhia de leprosos e suas mazelas aparentes que a destes senhores do senado e adjacências) Tenho notado que a excelência, entre eles, se dá conforme a moda vigente, a saber; a ambição humana, o trivial, a mesma porcaria de sempre. Diante desta patifaria rasgada, dá-me tal mal estar e vergonha de pertencer a mesma espécime destes pulhas que, acho mesmo, melhor cortar os pulsos, beber estricnina, me jogar de pontes. Pornografia pesada é esta que se lê nos jornais, nas revistas politizadas, o resto é playboy, coisa de menino.

terça-feira, outubro 07, 2008

Para morrer de rir.

Minha retina com seus bastonetes e cones sensibilíssimos à luz, mais uma vez converteram as imagens que estão amontoadas no mundo se valendo dos mesmos padrões de impulsos nervosos para transmitir pelo nervo óptico terríveis paisagens à meu cérebro. Quando finalmente o órgão encarcerado no crânio processou todas as imagens, formou-se um retrato grotesco da minha existência. Senhores, minha vontade era de chorar mas o saco lacrimal devia estar entupido.

quarta-feira, julho 09, 2008

I

“E não passará desapercebido aquele que em nome da honra cometer desatinos.”
                                     Provérbio da confraria de Dolores de Jesus.

Nasce em 1758, na Bahia, Dolores de Jesus. Filha de católicos, desde infanta acompanha as missas e novenas em Salvador. Seus pais, como católicos fervorosos, a iniciam em beatísses, almejando para a filha uma carreira santificada. Seria freira, vigária e quem sabe chegasse a abadessa, se seguisse a risca os preceitos cristãos. Acontece que Dolores tinha outros planos, menos ambiciosos e mais mundanos, mas isto ela não confessaria nem para o padre da família. A moça havia notado em seu íntimo que, para a época, seus desejos eram de um caráter que beirava a promiscuidade. Já na adolescência se apanha as voltas com pré-ocupações vaidosas e referentes a própria vaidade, a pobre percebera que não havia sido contemplada com formosura que valesse para contrair matrimônio, achava-se feia em demasia. Mais convicta de que era desprovida de beleza ficou quando, em passeios pela Lapa, era achincalhada pelos mancebos fidalgos que parasitavam a cidade. Quando começava a atingir a fase adulta entregava o pouco encanto que tinha aos negros de seu pai, que a teriam processado se tivessem a mão os recursos atuais. E assim, Dolores, nossa heroína injustiçada, por falta de dotes naturais não casou mas também não passou de beata renomada em Salvador. Jamais conseguiu ingressar no convento da Lapa por conta dos boatos maledicentes que corriam as escadarias das igrejas da pessoa que era Dolores, mas ia à Igreja todo santo dia e os não santos também. Em 1822, durante os primeiros movimentos revolucionários pela independência do Brasil, Dolores se enclausurou no mosteiro com outras beatas e freiras para fugir dos violentos combates entre tropas portuguesas e brasileiras. As noviças e freiras, abadessas e quem mais fosse e lá estivesse, temiam que vossas honras fossem devassadas, pois, a notícia era de que a cidade estava entregue à sanha da soldadesca dominadora. Com tudo isso é de se admirar que nenhuma das noivas bahianas de Jesus,  a cabo de defender suas honras, tenham tido tanta, ou perto disto, determinação quanto teve Dolores de Jesus. Há dias em clausto, em jejum, preocupada como as outras, para não se ver desonrada pelos saqueadores, costurou a própria genitália. Inúmeras freiras não resistiram ao poderio dos bárbaros, morreram, embora tenham lutado bravamente. Dolores saiu “ ilesa” das garras dos malfeitores, mas faleceu por falta de assepsia.

quinta-feira, abril 24, 2008

E pra não fazer desfeita ao Quintana, lá vai o meu.

Ventania, medo de você não chegar.
É certo, eu te esperava, todo dia
Eu pensava, até Godot chegou,
Você não.

E quando a ventania passou, e meu
Cabelo secou, e quando o mundo
Mudou, eu ainda te esperava.
Mas você não chegava, e eu me Impacientava.

Olha, as crianças Cresceram, a guerra acabou,
Começou outra e aí era o petróleo.
E você não chegava, eu chorava,
E você nada.

Eu via as pessoas, de longe
Um vulto, me arrumava, é certo,
Eu te esperava.

Pra todo canto eu olhava,
Os Eclipses da lua, o cometa, verdade,
Eu te esperava.
Mas você, não chegava.

Eu via as velas, "Cruzes", os barcos, que ventos os levava?
O pé eu não arredava, eu juro,
Te esperava.

A procissão passou rente a mim,
Alguns forasteiros, tantos cigarros,
Você, nada.

E por que eu chorava, os lenços gastos,
O tempo espantava a alma do corpo.
Era morta a bezerra, mas você,
Não sei por onde andava.
Até a promessa
Passara, mas certeza, não me cansava, Eu te esperava.

terça-feira, abril 08, 2008

Eu quero é ver o oco.

 

Verifico a ressaca assim que me dou por acordada todo o santo dia e os não santos também. Loucura e alegria, a meu ver, são dois nomes para uma mesma coisa que acontece com a gente e, há demais nesse invólucro do conjunto de órgãos nojentos e animados que sou. Que perigos externos podem ser piores que isto? Não existe o livre arbitrar, ser é padecer até o fim, que demora tanto. Interessa-me pouco as atividades 'pré-sináptica' e 'pós-sináptica', em suma, todo o processo elétrico do impulso nervosos que me anima. E, senhores, não há qualquer exagero no que afirmo a seguir; enjoa-me a punheta do sistema respiratório, aspirando oxigênio e expirando gás carbônico 'all the time'. E o que dizer da ladainha dos batimentos cardíacos? este órgão me irrita mais que qualquer outra víscera, tresloucado que é. É exaustivo ter de carregar por aí, aproximadamente cinquenta quilos de ossos, músculos, fluídos e outros tecidos deste organismo totalizado e mimado, carente demais, com suas necessidades 'escatológicas'. E me arrasto, doente que fico em contato com todos os elementos da tabela periódica, sendo eu parte disso, por fim. Se aguento um pouco mais, não me iludo, é somente por causa da impaciência que sente o meu espinhaço após muito tempo estirado na cama e, afora isto, tudo é mesmice e sublimação dos fatos. O quê estou fazendo, existência patética que sou, enchendo o mundo do palavreado que aprendi? Por isso é melhor silêncio. Sim, mais me valeria do que reclamar as coisas, a dança grotesca das células que me constituem. Nada aqui me inspira a menor simpatia e,  mecanicamente vou, vencida e certa de que não haverá liberdade mesmo no corpo vazio e podre, interessante apenas aos vermes carnívoros.
 * * * Vi outro dia, no centro da cidade, um cartaz que convidava o povo a participar de uma passeata contra o mosquito da dengue. Bom, eu acho que isso pode funcionar, por que o mosquito pode ver as pessoas se mobilizando contra ele e resolver ir embora para sempre.